Primavera Árabe completa 10 anos, entre esperança e decepção

Juventude se revoltou contra os governos

Juventude se revoltou contra os governos
Carmen Clara Rodríguez/EFE/13-01-12

Há 10 anos, o que era impensável quase aconteceu. O drama do jovem tunisiano, Mohamed Bouazizi, naquele momento desempregado, que ateou fogo ao próprio corpo como forma de manifestação contra as condições de vida da Tunísia, onde morava, se tornou um símbolo de algo que não era visto até então: o descontentamento das populações dos países do Oriente Médio e norte da África, principalmente os jovens, em relação a seus regimes autoritários, corruptos e que promoviam a crise social, desemprego e a desigualdade.

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As chamas no corpo de Bouaziz, que morreu e passou a ser considerado um mártir, acenderam nos jovens da região o ímpeto de se rebelar contra os governos locais, dando início à Primavera Árabe, em 17 de dezembro de 2010. Os protestos começaram no dia seguinte.

Os atos causaram revoluções na Tunísia e no Egito, guerra civil na Líbia, Síria e Iêmen e se espalharam em forma de protestos (greves, comícios e manifestações na rua) na Argélia, Bahrein, Djibuti, Iraque, Jordânia, Omã, Kuwait, Líbano, Mauritânia, Marrocos, Arábia Saudita, Sudão e Saara Ocidental.

Dez anos depois, aquela situação impensável, a de ver aqueles regimes autoritários abalados, já não se tornou tão impensável assim. Muitos países, apenas trocando o nome dos governantes, voltaram a ter o mesmo sistema opressor, com a população novamente desmobilizada.

Exemplo disso é o Egito, que chegou a eleger seu primeiro presidente civil (Mohamed Morsi), em 2012, para, após manifestações em 2013, ter um governo de transição instalado pelos militares (Adly Mansour) e voltar a ser comandado por militares (Abdel Fattah el-Sisi), em um regime autoritário, ainda que eleito (com suspeitos 96,91% dos votos).

“Tirando o caso da Tunísia, nenhum regime com tendências democráticas emergiu dos levantes populares. Muito pelo contrário. Temos sérias situações de conflito civil na Síria e no Iêmen. Não podemos deixar de citar a emergência do jihadismo do Estado Islâmico, parte fundado pela Arábia Saudita. O rastro de morte e sofrimento é infelizmente o maior legado do movimento”, afirma o professor de relações internacionais, Vladimir Feijó, do Ibmec.

O exemplo da Tunísia

Mas, além do acontecimento histórico, algo ficou. A insatisfação não foi de todo em vão. O caso da Tunísia, citado por Feijó, retrata isso. O país, até a Primavera Árabe, era comandado por Zine El Abidine Ben Ali, então há 23 anos no poder. Pressionado, ele renunciou em 14 de janeiro de 2011. Nem mesmo o governo de transição sobreviveu.

Os protestos prosseguiram até que o partido RCD, do antigo ditador, tivesse todos os seus membros expulsos do governo e seus recursos confiscados. Também foi extinta, por um tribuna, a polícia política. E, além disso, uma nova Assembleia Constituinte, considerada justa e limpa por entidades internacionais, elegeu o médico ativista Moncef Marzouki, do até então proibido Movimento Ennahda, à presidência.

Em julho de 2019, o então presidente, Beji Caid Essebsi, que havia sucedido Marzouki ao vencer as eleições, morreu, aos 92 anos. Ele estava há cinco anos no poder e, nas eleições para substituí-lo, Kais Saied, de 61 anos, ficou em primeiro lugar, permanecendo até hoje em um regime estável.

“Apesar de toda a violência podemos citar como positivo o contínuo engajamento da população jovem. Houve uma terceira onda de levantes em 2018. Os pedidos são os mesmos. A juventude tem esperança de um futuro melhor. É com isso que temas antes considerados tabu estão em franca discussão. O papel de liderança de muitas mulheres nos movimentos reverbera na inclusão de pauta em favor do direito da mulher. Apesar de são ser forte a noção de liberdade individual é forte a noção de dignidade. Há um grande movimento de releitura da Declaração dos Direitos Humanos  do Islã de 1990”, observa o professor.

Mudanças regionais

Os movimentos, por outro lado, ajudaram a diminuir a influência dos Estados Unidos na região, que passou a ter reforçada a hostilidade entre Irã e Arábia Saudita, temerosos em ver suas populações revoltadas, pelo controle geopolítico da região. Além disso, por esse mesmo motivo, impulsionada por interesses econômicos e vislumbrando um vácuo de poder, a Turquia emergiu como uma nova força no cenário político.

“Do ponto de vista da grande política no palco internacional os Estados Unidos perderam influência na região. Parte porque o país era o maior apoiador dos regimes autoritários na região em busca de interesses geopolíticos e acesso aos mercados dos hidrocarbonetos. Em seu lugar a Arábia Saudita e Irã apareceram como alternativas de liderança e mediadores na região. Essa dupla instigou e segue apoiando grupos opostos nos diversos países o que alimenta a violência”, ressalta Feijó.

Já o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, mantendo um viés populista e autoritário, aproveita-se do fato de ser o que mais tempo está no poder na Turquia, depois de Mustafa Kemal Atatürk, fundador do país (1923-1938), para recuperar um discurso islamista que remete ao Império Otomano.

Isso aproximou o país de grupos como o Hamas e a Irmandade Muçulmana, colocando a Turquia como um ponto de inflexão na região, com trânsito em vários lados .

“Se rumarmos um pouco mais ao norte, na Ásia Central, temos ainda a inclusão de um terceiro ator relevante da disputa de liderança muçulmana que á a Turquia. Correndo atrás da recuperação de prestígio e influência estão a França, Reino Unido e Rússia”, ressalta o professor.

Paz com Israel

Na 19ª Semana de Relações Internacionais do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília), realizado recentemente de forma online, a especialista em política internacional, Monique Sochaczewski, acrescentou que, na esteira das alianças contra o Irã, muitos países do Golfo Pérsico acabaram se aproximando de Israel, assinando acordos de paz, em uma outra consequência iniciada pela Primavera Árabe.

“É importante olhar para como a região se rearranjou nos últimos anos, sobretudo o eixo dos amigos dos Estados Unidos, os países do Golfo, sobretudo a Arábia Saudita, vão atuar para conter revoltas”, disse.

Pelo fato de serem monarquias do Conselho Coope do Golfo (formado por Bahrein, Kuwait, Omã, Qatar, Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos), a plataforma defendida é a de que tais que monarquias seriam regimes mais estáveis e que a Primavera Árabe levava volatividade.

“Houve como novidade a aproximação dos Emirados Árabes do Egito de el-Sissi, para conter a Irmandade Muçulmana. A história com a Arábia Saudita é antiga, o grande temor era que ativistas pudessem inflamar a região por dentro, a novidade na história da região foi a tentativa de normalizar relação com Israel”, completou a especialista.

E mais. No rastro da Primavera Árabe, o conflito entre Irã e Arábia Saudita acirrou a rivalidade entre xiitas e sunitas. Isso contribuiu para a explosão da Guerra Síria e para o fortalecimento do chamado Crescente Xiita, corredor que vai do Irã à Síria e ao Líbano.

“Formou-se esse eixo da resistência, em que o Irã se articula no Líbano, com Hezbollah, Síria e depois no Iêmen, de forma expansiva, gerando incômodo nos países do Golfo”, finalizou, mostrando que, se a Primavera Árabe não teve tantas repercussões sociais, conseguiu dar início a uma nova configuração desta região fundamental para a geopolítica mundial.

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